Quando os números assustam - Mais de meio milhão de afastamentos por saúde mental
30, Jan. 2026
Os dados divulgados recentemente pelo G1 sobre saúde mental no Brasil em 2025 revelaram um novo recorde: mais de 546 mil casos de afastamentos do trabalho.
Ansiedade e depressão são os principais motivos, e cresceram 15% em relação a 2024, colocando a saúde mental como um dos maiores fatores de afastamento no país. Esses números impressionam e confirmam algo vivido diariamente nas organizações, são o resultado acumulado de um modelo onde as pessoas prosseguem trabalhando até não conseguirem mais.
O sofrimento não é um problema individual
O sofrimento nas organizações não é algo isolado. Não se resume à capacidade de cada um lidar com a pressão ou à sua resiliência pessoal.
Ele acontece dentro das dinâmicas de trabalho. É um contexto coletivo, e o crescimento nessa escala, revela um problema estrutural.
Além do excesso de trabalho
O que observo com frequência vai muito além da intensidade e carga horária:
- Confusão de papéis e prioridades que mudam a todo momento;
- Lideranças exaustas ou despreparadas;
- Pressão incessante por resultados e prazos irreais;
- Relações não saudáveis;
- Ausência de reconhecimento e insegurança constante.
Esse contexto é extremamente desgastante, o corpo não relaxa e se mantém em alerta constante, e trabalhar nesse estado impacta o equilíbrio emocional. O afastamento é apenas o estágio final de um processo que começou muito antes, com o cansaço persistente, a irritabilidade, desrespeito, incertezas e a sensação de inadequação.
Esses dados me inquietaram e me fizeram refletir. O que na forma como temos organizado o trabalho tem gerado tantos adoecimentos?
O trabalho não deve adoecer
Cuidar da saúde mental não começa em campanhas isoladas, discursos bem-intencionados ou foco apenas nos sintomas. Começa por atuar nas causas. Tornar o trabalho saudável requer criar estruturas que façam com que as pessoas possam trabalhar sem adoecer:
- Lideranças conscientes e sadias;
- Comunicação empática e ambiente seguro;
- Metas alcançáveis e jornadas equilibradas;
- Recursos ergonômicos e ambientais adequados
- Cultura de respeito que reconhece limites antes que o corpo precise gritar.
Quando os números chegam a esse ponto, eles denunciam que algo na forma como estamos trabalhando necessita ser revisto. Olhar para os fatores que produzem sofrimento no trabalho e agir sobre eles, é o movimento que precisa acontecer sem adiamentos, não é amanhã, nem depois, é agora
Elaine di Lella - Especialista em Desenvolvimento Humano, Liderança Consciente, Saúde Mental no Trabalho, Mentora e Palestrante