Pequenas Vitórias da Infância
26, Jun. 2026
Esses dias me veio uma lembrança da infância… eu tinha 10 anos e estava
na 4ª série primária.
Era 1966. Um tempo sem internet, sem celular e sem a pressa dos dias
atuais. As fotografias eram poucas, e as lembranças precisavam encontrar abrigo
na memória. O Brasil vivia tempos de muitas mudanças a televisão
começava a se tornar presença cada vez mais comum nos lares brasileiros, e as crianças
passavam horas brincando na rua, descobrindo o mundo de um jeito bem diferente
do que acontece hoje.
Faz bastante tempo… nem sei exatamente o motivo dessa lembrança ter
voltado agora... rs... rs...
Antes
de continuar essa lembrança, preciso falar da minha professora: Lucy Gallego.
Uma excelente professora. Eu gostava muito dela e das histórias que contava
Certa vez ela falou sobre o amor pelas pessoas. Disse que a gente não
precisa deixar de gostar de alguém para poder gostar de outro. O coração
simplesmente vai abrindo espaço, acomodando sentimentos, guardando pessoas.
Algumas passam, outras permanecem. E os afetos sinceros podem ficar pela vida
toda.
Levei isso comigo sem perceber.
Engraçado como certas frases escutadas na infância encontram morada
dentro da gente. Na época talvez eu nem entendesse a profundidade daquilo, mas
hoje vejo o quanto essas palavras atravessaram os anos comigo.
Alguns professores ensinam matérias. Outros ensinam a vida.
Bem, continuando…
Lembro muito das festas juninas da escola. Existia uma grande quadrilha,
e quem dançava era sempre um casal de cada sala. Normalmente escolhiam os
considerados “mais bonitos”, e eu ficava olhando tudo de longe, com aquela
vontade silenciosa de também participar um dia.
Na minha cabeça de criança, imaginava como seria entrar na quadra,
dançar, ouvir as músicas, sentir todo mundo olhando. Parecia algo importante.
Mas, independentemente da grande quadrilha, minha professora ensaiou uma
dança com toda a sala, que seria a primeira apresentação da festa. E eu estava
tão feliz…
Lembro da minha mãe reformando um vestido para mim. Ficou lindo.
Só que naquele dia algo aconteceu.
Já estávamos prontos: eu, minha mãe e meus irmãos. Mas meu pai implicou
que só iríamos quando ele fosse também. E isso demorou mais do que deveria.
Quando finalmente chegamos à escola, a apresentação já tinha acontecido.
Ainda levei bronca pelo atraso e pelo menino que faria par comigo ter
ficado sozinho no palco. Na hora, colocaram outra menina para dançar com ele.
Naquele instante, senti uma tristeza enorme. Criança guarda essas coisas
em silêncio.
Mas era uma época diferente. Os pais eram diferentes também. Muitas
vezes a criança nem podia explicar o que sentia, apenas aceitava.
E não foi dessa vez que consegui dançar. E vamos à lembrança que me veio recentemente:
Haveria uma comemoração na escola, não lembro exatamente do que se
tratava.
Em uma das aulas, nossa professora avisou que um aluno da turma seria
escolhido para declamar uma poesia durante a comemoração. Quem quisesse
participar precisaria fazer mais do que decorar os versos: era preciso
interpretar, colocar emoção, usar gestos, sentir cada palavra.
E aquilo mexeu comigo.
Porque, pela primeira vez, não dependia de ser escolhida por aparência,
não dependia de ser “o casal mais bonito”, nem de alguém me colocar ali.
Dependia só de mim.
Eu só precisava decorar… e acreditar que conseguiria.
Mas tinha uma menina da sala, que era minha vizinha, muito exibida e
chata, e ela dizia com toda certeza que iria ganhar. Lembro disso até hoje.
E alguma coisa dentro de mim pensou:
“Dessa vez não… dessa vez eu vou conseguir. ”
Então me dediquei. Decorei cada palavra, ensaiei a emoção, os gestos, a
forma de falar.
E ganhei. Fui escolhida pelos alunos.
Pode parecer uma lembrança simples, mas hoje percebo que talvez aquela
tenha sido uma das primeiras vezes em que senti o gosto da confiança em mim
mesma.
Talvez aquela pequena vitória tenha me ensinado algo que só compreendi
muitos anos depois: a confiança não nasce quando tudo dá certo. Ela nasce
quando descobrimos que somos capazes de tentar, de nos dedicar e de acreditar
em nós mesmos, mesmo quando ninguém percebe o quanto aquilo é importante.
Talvez eu tenha lembrado disso hoje porque, às vezes, a memória não
volta pelo acontecimento em si, mas pela sensação que ele deixou.
Talvez a menina de 10 anos só queira me lembrar que existem momentos em
que a vida muda silenciosamente dentro da gente. Que algumas vitórias pequenas
para os outros podem ser enormes para quem as viveu.
E talvez eu tenha
lembrado disso porque, no fundo, ainda carregamos dentro de nós a criança que
um dia só queria ter uma chance… e conseguiu.
Sueli Alves é formada em Psicologia e Pós-Graduada em Gestão de Pessoas. Com quase 40 anos de vivência na área de Recursos Humanos, Recrutamento, Seleção e Treinamento, atuou em empresas de diversos portes e segmentos. Foi coordenadora do grupo UNIRH - União de Recursos Humanos, por vinte e quatro anos. É Diretora Administrativa/Financeira da AGERH.